Uma memória de infância marcada pela injustiça, pelo silêncio e pelas marcas que a violência deixa ao longo da vida. O que poderia ser apenas uma lembrança simples acabou se transformando, com o tempo, em um retrato profundo de humilhação e impotência. À primeira vista, parece apenas uma cena doméstica comum; no entanto, por trás daquele gesto aparentemente pequeno, existia algo muito maior.
Com o passar dos anos, percebi que certas experiências não desaparecem, elas apenas se acomodam dentro de nós. Às vezes, ficam em silêncio; outras vezes, retornam sem aviso, trazendo consigo emoções que pareciam adormecidas. Por isso, algumas memórias funcionam como gavetas antigas: mesmo quando acreditamos que estão fechadas, insistem em se abrir. E, justamente por isso, essa lembrança nunca deixou de doer.
Além disso, essa memória não é apenas sobre um episódio isolado; na verdade, ela revela uma dinâmica que se repetia silenciosamente dentro daquela casa. Assim, aquilo que parecia pequeno ganhou um peso desproporcional com o passar do tempo. Consequentemente, cada detalhe ficou gravado com mais nitidez, como se o corpo e o coração se recusassem a esquecer. Por essa razão, essa memória de infância marcada pela injustiça continua atravessando os anos e reaparecendo quando menos espero.

Uma memória de infância marcada pela injustiça começa em um gesto simples
Eu lembro exatamente do dia em que aquela gaveta abriu.
Uma das minhas irmãs levou camarão para casa para fazer um salgado. Naquele tempo, elas sempre cozinhavam para vender ou ajudar alguma vizinha. Nesse dia, ela separou os camarões grandes, descascou um por um e deixou as cascas em uma bacia cheia de água.
Quando vi aquele pote, imaginei que alguns camarõezinhos pequenos tivessem ficado ali, esquecidos entre as cascas. E, de fato, estavam. Embora quase não desse para vê-los, eram minúsculos.
Comecei a catar com cuidado, um por um. Minha mãe estava perto e, logo depois, começou a me ajudar. Por alguns minutos, era apenas um momento simples. Quase bonito.
Quando a memória de infância marcada pela injustiça deixa de ser inocente
Até que ele chegou.
O quinto filho dos meus pais perguntou à minha mãe o que ela estava fazendo, pois disse que queria os camarões pequenos. Antes mesmo que ela respondesse, eu falei — talvez com pressa, talvez com medo de perder:
— Eu já estou catando pra mim.
Ele não discutiu, nem respondeu. Em vez disso, pegou a bacia cheia de cascas e água de camarão e virou tudo na minha cabeça.
— Você quer os camarões pra você? Então toma.
Humilhação, silêncio e as marcas da injustiça
Na mesma hora, comecei a chorar. Fiquei toda suja. Lembro até hoje da blusa que eu usava: rosa, com listras coloridas. Chorei de raiva, de humilhação e, principalmente, de injustiça.
Olhei para minha mãe e perguntei, entre lágrimas:
— A senhora não vai falar nada?
Imediatamente me arrependi. Só depois entendi o motivo do silêncio dela.
Quando, finalmente, ela disse que aquilo era errado e que ele estava sendo cruel, ele voltou e a empurrou. Minha mãe quase caiu no chão. Naquele instante, algo dentro de mim mudou.
Ali eu compreendi por que tantas coisas erradas nunca eram ditas em voz alta dentro daquela casa.
As memórias que o tempo não apaga
Às vezes, essa memória de infância marcada pela injustiça volta sem aviso. De repente, ela abre uma caixa inteira dentro de mim. Volta com raiva. Volta com impotência. E volta, também, acompanhada de outra dor: a de lembrar que minha mãe morreu.
Ela era boa. Aguentou mais do que deveria. Enquanto isso, ele segue vivendo a vida tranquilamente, com saúde, como se nada tivesse acontecido.
Algumas gavetas não guardam apenas lembranças. Na verdade, guardam perguntas que nunca tiveram resposta, e uma raiva que não envelheceu com o tempo.
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